Este artigo se apoia em “Alguém, não alguma coisa“. Se você ainda não leu, comece por lá.
Se Deus estivesse sozinho
Útil ou querido?
Na vida de quase todo mundo existe uma pessoa que se chama quando há uma necessidade, uma emergência, ou apenas para pedir uma opinião.
Precisa de uma mão na mudança. Precisa de um empréstimo até o fim do mês. Precisa de alguém que passe para pegar as crianças, que acompanhe ao hospital, que dê uma olhada no computador. E é sempre aquela pessoa: porque é confiável, porque tem o carro, porque nessas coisas ela é boa.
Provavelmente você também é essa pessoa para alguém. E não há nada de mal nisso. Ser útil é uma coisa boa, e até faz bem.
Só que pode ser que, naqueles dias meio assim, quando já estamos cansados e alguém precisa de uma mão, passe pela cabeça um pensamento.
Talvez não o digamos em voz alta e ele dure só alguns segundos.
Ou então fica mais tempo e nos incomoda por dentro:
Se um dia eu não tivesse mais nada para oferecer — nem carro, nem tempo, nem dinheiro, nem competência — ainda iriam me querer?
Há uma diferença entre ser útil e ser querido. Em geral não a nomeamos. Mas a sentimos muito bem.
E agora a pergunta que quero te fazer:
quando Deus fez você, era o primeiro caso ou o segundo?
Porque, se antes do mundo não houvesse mais ninguém, Deus estaria sozinho.
E um Deus sozinho só poderia amar depois de criar alguém para amar.
Você estaria aqui por isso: para preencher o que lhe faltava.
Útil. Utilíssimo — mas fruto de uma falta.
A menos que, antes do mundo, já houvesse alguém.
É aqui que entra a Trindade. Não como um quebra-cabeça de matemática:
como uma resposta que se sustenta diante dessa pergunta.
O que se afirma, e o que não
O cristianismo afirma que existe um só Deus. Não três.
Esse único Deus é Pai, Filho e Espírito Santo.
Cada um dos três é Deus por inteiro, não um terço. O Pai não é a parte importante, e o Filho não é uma versão reduzida,
um colaborador promovido, um segundo em comando.
O mesmo vale para o Espírito Santo. Não é uma força nem uma energia que vem de Deus: é Deus, e é alguém.
Pedro diz a um homem que ele mentiu ao Espírito Santo e, logo em seguida, que mentiu a Deus (cf. Atos 5:3-4).
E não são três modos de se apresentar do mesmo sujeito: não é um Deus que muda de máscara conforme a ocasião.
Se fossem máscaras, no Gólgota não teria morrido ninguém — teria havido apenas alguém representando um papel.
Mas Jesus estava lá e morreu de verdade.
Distintos, mas não separados. Um, mas não sozinho.
Um no quê, três no quem
Para dizê-lo sem se contradizer, basta uma distinção só.
Deus é um no que é. E é três em quem é.
Pense numa pessoa qualquer. Existe o que ela é — um ser humano — e existe quem ela é: um nome, um rosto, uma história que não é a de mais ninguém. Em nós, as duas coisas andam juntas: um ser humano, uma pessoa. Em Deus, não. Uma só natureza, um só quê (a tradição diz ousia).
Três quem (a tradição diz hypostasis). Não três deuses, porque o quê é um só. E não um só quem, porque os três não se reduzem um ao outro.
Para esses três quem, a tradição usa a palavra “pessoas”. Aqui “pessoas” não quer dizer três indivíduos separados, como três pessoas numa sala.
Quer dizer três quem, dentro de um só quê.
Uma última precisão: “um só quê” não quer dizer um só lugar. São duas coisas diferentes.
O que faz dos três um só Deus não é estarem os três no mesmo ponto do espaço.
É serem a mesma natureza divina — o mesmo poder, a mesma eternidade.
Deus não ocupa um lugar como nós ocupamos uma cadeira. Não é um corpo que, se vem para cá, deixa o céu vazio.
Está inteiro, em toda parte, no mesmo instante.
O dia do rio
Há uma cena que mostra os três juntos sem explicar nada.
Jesus entra na água de um rio para ser batizado. Quando sobe, o Espírito desce sobre ele como uma pomba,
e do céu uma voz diz que aquele é o seu Filho, o amado (cf. Mateus 3:16-17).
Três. No mesmo momento, no mesmo lugar. O Filho na água, o Espírito que desce, o Pai que fala. Distintos:
o Filho não é a voz, e a voz não é a pomba. Mas é uma cena só, e ninguém falta. Ninguém que tira uma máscara para colocar outra.
A voz não diz que ele fez bem o seu trabalho. Diz que é o Filho, e é amado.
É por isso que a Bíblia pode dizer que Deus é amor, e não que tem amor (cf. 1 João 4:8).
Não é uma qualidade entre outras, como a paciência ou a memória. É o que ele é.
Um Deus sozinho, antes do mundo, poderia ter o amor como possibilidade: um talento parado, à espera de alguém sobre quem exercê-lo.
Um Deus que é Pai, Filho e Espírito ama desde sempre — desde antes de existir o mundo (cf. João 17:24).
Deus não precisava de você para amar. Você não veio ao mundo para preencher um vazio.
Levou três séculos para dizê-lo
Tem gente que ouviu dizer que a Trindade foi inventada por Constantino, num certo concílio, por motivos políticos.
Não foi assim. Nos textos cristãos mais antigos, o Pai, o Filho e o Espírito aparecem juntos desde o princípio.
O que faltava era a maneira de dizê-lo sem errar, e encontrá-la levou cerca de três séculos:
fixada em Niceia, em 325, e completada em Constantinopla, em 381.
Uma doutrina serve para isso. Não acendeu o fogo: o amor por Cristo já existia, e ardia desde antes.
Construiu a lareira, para que as faíscas não incendiassem a casa.
O que não se entende
A Trindade não se entende a cem por cento. Não porque seja complicada: a mente humana não a esgota,
e o cristianismo sério sempre disse isso sem constrangimento. Explica-se o que se pode explicar, e não é pouco.
Mas é um tema que não se parece com nada do que conhecemos, e a nossa mente só o alcança em parte.
Por isso as imagens que nos ensinaram na infância ajudam um pouco, mas não se sustentam até o fim.
A água que vira gelo e depois vapor diz que é sempre a mesma coisa mudando de estado: são de novo as máscaras.
O trevo diz que Deus tem partes e que cada um dos três é um pedaço, mas a realidade é que cada um dos três é Deus por inteiro.
Afinal, se bastasse um trevo, não teriam sido necessários três séculos.
O oceano não cabe num buraco cavado na areia. Não porque o oceano seja contraditório: porque o buraco é o que é.
Conta-se que Agostinho, enquanto refletia justamente sobre isso, andando pela praia, viu um menino que
tentava levar o mar para dentro de um buraco com uma concha.
Agostinho perguntou o que ele estava fazendo, e o menino respondeu que seria mais fácil fazer o mar caber naquele buraco
do que a Trindade na cabeça dele. É uma lenda medieval, não um fato. Mas diz bem a coisa.
O que fica
A pergunta era: sou útil, ou alguém me quis?
Se antes do mundo não havia solidão — se já havia amor — então o que veio depois não nasceu de uma falta.
Nasceu de uma superabundância.
Você não é a peça que faltava. Alguém quis você.
Referências bíblicas: Mateus 3:16-17 — João 17:24 — Atos 5:3-4 — 1 João 4:8 — Deuteronômio 6:4 — Mateus 28:19 — João 1:1-3 — 2 Coríntios 13:13






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