A Grande História: Deus em missão pela humanidade

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O vazio por trás do sorriso

E se falarmos da sensação de estar perdido? De vez em quando, mas cada vez com mais frequência, ela aparece nos dias de todo mundo. Isso também precisa ficar escondido, porque é preciso ser vencedor, não mostrar os pontos fracos, nunca se dobrar — porque o mundo é dos fortes e dos espertos. E então escondemos a nossa sensação de insignificância, colamos um sorriso bem forçado no rosto e vamos enfrentar o dia como vencedores. Mas quando se está sozinho, e se há coragem de olhar bem no fundo de si mesmo, não dá para negar o que existe ali dentro. Vazio.

Essa sensação de inadequação chega a nos fazer sentir ingratos. No fim das contas, tenho tanto a agradecer — por que me sinto assim? E então contamos a nós mesmos que é questão de tempo: quando eu tiver mais dinheiro, mais fama, mais likes, um marido melhor, uma esposa mais tranquila, filhos mais obedientes, uma casa melhor, um trabalho diferente — aí sim, vou estar completo e feliz. E, no entanto, alguma coisa não fecha. Mesmo quando conseguimos realizar o último desejo da vez, a satisfação não dura.

Nos últimos anos, graças à vitrine das redes sociais, dá para observar pessoas que têm tudo o que o dinheiro pode comprar — fama, “sucesso”, fãs. E muitas, muitíssimas delas parecem tudo, menos serenas e felizes. O que será que nos falta?

O matemático e filósofo Blaise Pascal chegou a um diagnóstico que hoje costuma ser resumido assim: no coração do homem há um vazio com o formato de Deus. Não são as palavras exatas dele — falava de um abismo infinito, que só algo infinito pode preencher —, mas o pensamento é esse. Tentamos preencher esse vazio com as coisas limitadas da vida, e as coisas limitadas nunca bastam.

E se esse vazio não fosse um defeito de fabricação? E se fosse uma saudade — o sinal de que fomos pensados e criados para algo maior do que aquilo com que enchemos os nossos dias?

Uma história em sete atos

Existe um livro que sustenta exatamente isso. A Bíblia não se apresenta como um manual de regras para pessoas religiosas. Ela conta uma história — uma só, do começo ao fim, escrita ao longo de mil e quinhentos anos por mais de quarenta mãos, e ainda assim com um único fio. E faz uma coisa ousada: essa história explica também o seu vazio. E ainda não acabou.

Vamos tentar olhá-la como uma peça de teatro. Sete atos. Veja-os passar — e tente observar em que ponto você entra em cena.

Primeiro ato — A vida recebida

A história se abre com Deus que cria. E cria por amor: a luz, o céu, o mar, a vida — e, por fim, o homem e a mulher, feitos à imagem e semelhança de Deus (cf. Gênesis 1:26-27). Imagem: não servos, não engrenagens, não performance. Criados para a relação — com ele, entre nós, com a criação. E sobre tudo isso, o primeiro juízo já pronunciado sobre a existência humana: era muito bom (cf. Gênesis 1:31).

No começo da história, o vazio não existe. Existe um valor inato — não conquistado: recebido.

Segundo ato — A fratura

O relato também nos mostra como era essa vida. Há um detalhe que passa quase despercebido: quando tudo se despedaça, o homem e a mulher reconhecem os passos de Deus que anda no jardim, à brisa do dia (cf. Gênesis 3:8). Reconhecem os passos. Quer dizer que já os tinham ouvido antes — que aquilo era o normal: Deus passeando no jardim, e eles com ele. Nenhuma distância, nenhum medo, nada a esconder. Guarde essa cena, porque é exatamente o que está prestes a se romper.

Depois, a fratura. Não por uma maçã roubada — o texto, veja só, não fala de maçãs. Uma voz insinua que Deus estaria segurando alguma coisa boa, e o ser humano escolhe acreditar naquela voz: decidir sozinho o que é o bem e o que é o mal, não confiar mais na palavra de Deus. Soa familiar?

A consequência é imediata — e não é liberdade. É vergonha e medo. Os mesmos passos que tinham sido companhia viram o motivo para se esconder. Como nós hoje, quando fazemos algo que sabemos ser errado: fazemos escondido, longe de onde podem nos ver, com as nossas folhas de figueira modernas. E quando nada disso funciona, e somos descobertos, procuramos um culpado. Adão culpa a mulher — e, indiretamente, Deus:

“A mulher que me deste por esposa, ela me deu da árvore…” (Gênesis 3:12).

Eva culpa a serpente. E eu e você, a quem colocamos a culpa?

Essa fratura não ficou no jardim. Atravessa a história e atravessa cada coração: separados da fonte da vida, respiramos cada vez menos ar sem entender por quê. O vazio do começo — aqui está ele. Não é um defeito de fabricação: é uma ferida.

E, no entanto, a primeira coisa que Deus faz, depois da fratura, não é uma acusação. É uma pergunta:

“Onde estás?” (Gênesis 3:9).

Não um interrogatório — uma busca. Daqui em diante, toda a história é a resposta a essa pergunta: Deus em movimento na direção do homem que se esconde.

Terceiro ato — A promessa: Abraão e a aliança

O movimento começa pequeno, como Deus costuma fazer. Escolhe um homem — Abraão — e lhe faz uma promessa desproporcional a tudo o que se vê: nele serão abençoadas todas as famílias da terra (cf. Gênesis 12:3). Todas. Não uma tribo, não uma nação: as famílias da terra. A sua incluída.

E ele não se limita a prometer: ele se compromete. Firma com Abraão uma aliança — um pacto solene em que é o próprio Deus que se obriga, que põe o próprio nome como garantia. A partir daquele dia, a bênção tem um endereço dentro da história: de Abraão um povo, desse povo uma descendência, e nessa descendência a resposta à fratura. Porque Deus não conserta o mundo de fora, com um decreto. Ele entra na história e a percorre por dentro, de geração em geração.

Quarto ato — A libertação: o Êxodo

Séculos depois, esse povo se encontra escravo no Egito. E é aqui que a história revela o seu esquema.

Deus vê a opressão, escuta o clamor, desce para libertar (cf. Êxodo 3:7-8). Não manda instruções para uma fuga: ele intervém. E a libertação chega numa noite precisa — uma noite em que o juízo passava sobre o Egito, e uma só coisa separava uma casa da outra: uma porta marcada com o sangue de um cordeiro.

“O sangue vos será por sinal nas casas em que estiverdes; quando eu vir o sangue, passarei por vós, e não haverá entre vós praga destruidora, quando eu ferir a terra do Egito” (Êxodo 12:13).

Aquele sangue não era um enfeite. Era o que fazia o juízo passar adiante; era proteção, e era refúgio. E há um detalhe que pesa: a porta não se marcava sozinha. Cada família tinha que decidir se a marcava ou não. A libertação era oferecida a todos — mas precisava ser acolhida, casa por casa.

Guarde este esquema: escravos, um cordeiro, o sangue, uma porta, a liberdade. Ele vai voltar.

O Êxodo não é apenas um episódio: é o ensaio geral da história inteira. Deus não é um Deus que dá conselhos aos prisioneiros. É um Deus que abre as celas. E o povo libertado recebe uma tarefa: ser diferente, visível, uma luz acesa no meio das nações — porque a bênção prometida a Abraão era para todos, desde o começo. Ele vai conseguir de forma intermitente, entre impulsos e quedas, reis e profetas. Mas dentro daquelas páginas uma promessa continua pulsando: alguém virá.

Quinto ato — O centro: Cristo

E então, no ponto exato da história, a promessa se faz carne. Deus não manda mais uma mensagem, mais um profeta, mais uma lei. Ele mesmo vem, no Filho.

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” (João 3:16)

O movimento, mais uma vez, parte dele. Não de nós, que finalmente o procuramos:

“Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Romanos 5:8).

Ainda pecadores. Não depois de termos melhorado, não assim que ficamos apresentáveis. Quando ainda estávamos do outro lado.

O esquema do Êxodo — escravos, um cordeiro, o sangue, uma porta que se abre — se repete no Calvário. Mas desta vez para todos, e para sempre. Por que aquela morte foi necessária, e o que de fato aconteceu naquela cruz, veremos em outro artigo. Aqui basta ver o ponto: toda a história subia rumo a este ato. É o ápice — o centro exato.

E no terceiro dia, o túmulo vazio: a libertação está cumprida. A porta está aberta.

Sexto ato — O ato ainda aberto

Aqui está a parte que quase ninguém conta: a história não termina com a ressurreição.

Antes de subir ao céu, Jesus confia aos seus exatamente o que tinha sido prometido a Abraão: levar a bênção

“…até aos confins da terra” (Atos 1:8).

Mas não os manda sozinhos, e não os manda logo: diz a eles que esperem. Porque aquela missão não devia partir das forças humanas. Poucos dias depois, em Pentecostes, o Espírito Santo desce sobre eles (cf. Atos 2:1-4) — e aqueles mesmos homens que tinham fugido na noite da prisão saem à praça para falar sem mais nenhum medo. Não tinham ficado mais corajosos: estavam habitados. É o Espírito o motor deste ato — o mesmo que ainda hoje abre os olhos, convence, chama.

E há dois mil anos este ato está em andamento: pessoas comuns — pescadores e camponeses, mães e artesãos, médicos e prisioneiros, estudantes e mestres, gente como eu e como você — que atravessaram aquela porta e não conseguiram ficar caladas. Se hoje você pode ler estas linhas, é porque aquela bênção viajou por séculos, de mão em mão, de vida em vida, até chegar aqui. Esta página também, no seu tamanho pequeno, pertence ao sexto ato.

E o sexto ato tem uma característica que nenhum outro tem: ele ainda está aberto. Está sendo escrito agora. Estamos dentro dele, eu e você. E nesta história ninguém entra como espectador: nesta peça não existem lugares na plateia. Até ficar parado, aqui, é tomar uma posição.

Sétimo ato — A restauração: a nova criação

A história não termina com uma fuga do mundo. Termina com Deus que faz novas todas as coisas: céus novos e terra nova. Um mundo onde ele mesmo enxugará cada lágrima, onde não haverá mais morte, nem luto, nem dor (cf. Apocalipse 21:1-5). O fim se parece com o começo — vida recebida, relação, nenhum vazio — mas maior: não mais um jardim a guardar, uma cidade cheia de povos.

E a vida de que fala João 3:16 não começa no sétimo ato. Começa agora. Voltar a respirar da fonte — agora. A restauração final e completa é prometida; a reconciliação e a vida nova são oferecidas hoje.

O lugar vazio

Voltemos ao ponto de partida — àquele vazio por trás do sorriso. A Bíblia diz que Deus pôs no coração do homem o pensamento da eternidade (cf. Eclesiastes 3:11). Talvez aquele vazio não fosse a prova de que a vida não tem sentido. Era saudade de casa. O lugar, dentro de você, onde esta história quer entrar. Como escreveu Agostinho: “Fizeste-nos para ti, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousa em ti.”

Sete atos. Cinco estão atrás de nós, um é prometido — e um está sendo escrito agora, com papéis ainda em aberto. Não como figurante: um convite a se tornar filho, não apenas criatura.

Como na noite do Êxodo, a porta não se marca sozinha: um convite de verdade também pode ser recusado — é justamente isso que o torna um convite. Ele é dirigido a você.

Ocupe o seu lugar na História.


Referências bíblicas: Gênesis 1:26-27,31 — Gênesis 3:1-13 — Gênesis 12:1-3 — Êxodo 3:7-8 — Êxodo 12:13 — Eclesiastes 3:11 — João 3:16 — Atos 1:8 — Atos 2:1-4 — Romanos 5:8 — Apocalipse 21:1-5

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